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27 September PETRÓLEO...NA ÁFRICA! por
Diogo Mainardi, colunista da Veja
“O
pré-sal tem tudo para repetir o ciclo da borracha. Do apogeu à queda. A
belle époque amazonense recorda a belle époque lulista. De um lado, os
magnatas da floresta; do outro, os magnatas do sindicato” A nova fronteira do petróleo. Onde? Serra Leoa. Até a semana passada, a nova fronteira do petróleo era formada pela Bacia de Santos e pela Bacia de Campos, com suas reservas na camada do pré-sal. Agora isso mudou. A nova fronteira do petróleo, segundo as manchetes do Wall Street Journal e do Financial Times, está localizada na África Ocidental, numa área de 1 100 quilômetros que se estende do litoral de Gana, onde há o campo de Jubilee, até o litoral de Serra Leoa, onde acaba de ser descoberto o campo de Venus B-1, a uma profundidade de 5 640 metros, como os jornais anunciaram, batendo o bumbo, na última quarta-feira. A Anadarko, a companhia americana que fez a descoberta em Serra Leoa, já está mandando seu navio-sonda, Belford Dolphin, para a Costa do Marfim. Depois ele seguirá para o outro lado da África. Dependendo do que encontrar por lá, a área certamente será chamada pelo Wall Street Journal e pelo Financial Times – parem as máquinas! – de nova fronteira do petróleo. O Brasil tinha um modelo seguro. Igual ao de Serra Leoa. Igual ao dos Estados Unidos. Para terem o direito de perfurar o solo, as companhias de petróleo eram obrigadas a pagar antecipadamente, arrendando lotes. O risco era só delas. E o poder público sempre saía ganhando. Lula decidiu desmontar o modelo. No pré-sal, quem paga antecipadamente é o contribuinte, por meio de empréstimos públicos, e a Petrobras promete rendimentos para daqui a dez ou quinze anos, se seus planos derem certo. Nos últimos tempos, o barril de petróleo chegou a 150 dólares e, em seguida, caiu para 30 dólares. O que Lula está fazendo, enrolado na bandeira nacional junto com Dilma Rousseff e Luis Fernando Verissimo, é apostar metade do PIB brasileiro nesse negócio, como um especulador no mercado futuro de petróleo. O pré-sal tem tudo para repetir o ciclo da borracha. Do apogeu à queda. A belle époque amazonense recorda a belle époque lulista. De um lado, os magnatas da floresta; do outro, os magnatas do sindicato. A borracha amazonense desvalorizou-se quando os ingleses plantaram seringais na Malásia. É o que pode ocorrer com a descoberta de novas fronteiras do petróleo, mais competitivas e mais baratas: em Serra Leoa, no Ártico, nos Estados Unidos. Por fim, a indústria desenvolveu a borracha sintética, da mesma maneira que vai desenvolver novas fontes de energia, para substituir o petróleo. Rodrigues Alves tomou posse do Acre, para garantir o monopólio da borracha. Lula está tomando posse do pré-sal, para garantir o monopólio do petróleo. Sim, o pré-sal tem tudo para repetir o ciclo da borracha. Nesse caso, o lulismo é uma espécie de Madeira-Mamoré do pensamento: inútil e deficitário. 30 August País do faz de conta No Estadão: Houvesse um campeonato mundial de epítetos, o Brasil faria boa performance: somos o país da piada pronta, da improvisação e da bagunça. Por aqui, nada é certo, positivo ou medido. Somos a terra do "mais ou menos", onde "pois não" quer dizer "sim" e renúncias irrevogáveis se tornam revogáveis. Gilberto Amado, embaixador e gozador de nossos costumes, cunhou com propriedade o chiste: "O Brasil é um país aproximativo." Impropérios não devem ser levados a sério. Querelas públicas fazem parte do show. O ataque apoplético do senador Eduardo Suplicy, na terça-feira, ao exibir o cartão vermelho para expulsar da grande área do Senado o presidente José Sarney, foi um ato do teatro escatofônico em que se transformou a política. No dia seguinte o cartão ganhou as cores branca, azul e até rosa, sendo motivo de chacota. Também, pudera: o senador Suplicy, com sua fleuma, parece sempre chegar atrasado. Já a demissão de membros da cúpula da Receita Federal se impregnou do caráter político que eles pretendiam denunciar. Ou seja, ao pedir o boné, os demissionários agiram politicamente. Qual a motivação? Evitar política no Fisco. Para locupletar o acervo do faz de conta que marca o cenário institucional, o senador Tião Viana (PT-AC) propõe a extinção do Conselho de Ética do Senado. O argumento? Resgatar a moral da Casa. É risível. A ideia de que o Brasil é a terra da improvisação ganha força principalmente no momento em que os motores pré-eleitorais começam a esquentar. Veja-se esse projeto do pré-sal preparado pelo Executivo e que tem a rejeição pública do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. A decisão do governo de substituir o regime de concessão, adotado atualmente para a exploração do petróleo, por contratos de partilha para as jazidas do pré-sal não agrada aos Estados e municípios produtores, que sofrerão fortes perdas com o novo sistema. Só o Rio de Janeiro deixaria de ganhar R$ 14 bilhões por ano. Para compor um programa que poderá conferir ao País a condição de grande produtor de petróleo seria oportuno um debate aberto com as cadeias produtora e consumidora, as organizações representativas da sociedade e a esfera política. Não houve. Concebido para encarnar interesses do governo, e não os do Estado, o projeto é mais uma fonte de atrito entre os entes federativos. Eis o cerne da questão. Os limites do Estado e os espaços do governo se confundem. Quando o manto do Executivo cobre o mapa do Estado, passa a acolher um leque de contrafações. O lulismo tem caprichado na imbricação dos dois entes. Nunca se gastou tanto com os quadros funcionais e nunca houve tanta distribuição de feudos como nestes tempos de cooptação geral. O efeito é catastrófico: programas, escopos e modos de operação saem dos trilhos. Olhe-se para a balbúrdia no Fisco. O espírito de corpo manifestado por um grupo de demissionários sinaliza um viés sindicalista, politiqueiro e oportunista, que não combina com a identidade técnica que deve caracterizar o órgão. O que se sabe é que ocorreu ali uma grande mudança na cúpula, após os ciclos de Everardo Maciel e Jorge Rachid, com o ingresso de perfis carimbados pelo sindicalismo. Ora, as bandeiras sindicalistas, como se sabe, são desfraldadas por poderosas centrais, cuja ação política é visível. O argumento de que a Receita deixou de fiscalizar grandes contribuintes é lorota, pois desde 2005 as grandes empresas têm respondido por mais de 86% da arrecadação do IRPJ. A queda da receita deve-se ao refluxo da economia em tempos de crise - a "marolinha" de Lula tinha, afinal, de apresentar a conta - e ao pacote de isenções que o governo preparou para embalar o sono de cerca de 60 milhões de brasileiros: 20 milhões agasalhados pelo assistencialismo que os jogou na rede de consumo e 40 milhões beneficiados com o programa de isenções para os produtos da linha branca, motos e automóveis. Se somarmos esses benefícios à queda da produção - em alguns setores alcançou 40% -, teremos a equação responsável pelo ingresso menor de recursos nos cofres do Tesouro. Sob esse entendimento, a rebelião na Receita ganha coloração política, sendo fruto do açodamento de grupos que disputam poder. E por que isso acontece? Por conta dos buracos abertos pelo presidencialismo. Os órgãos de Estado passam a ser braços e pernas dos governos. Seria inimaginável uma crise no Fisco num sistema de governo parlamentarista. Os corpos técnicos seriam preservados mesmo sob grave crise política. Outro campo minado pela politicagem é o das relações trabalhistas. O governo Lula entregou essa seara às centrais sindicais, cuja ação avassaladora se entranha no corpo do Estado, não para injetar sangue novo, mas para conservar os velhos privilégios. Não satisfeitas com as polpudas verbas que abocanham - R$ 116 milhões este ano -, promovem espetáculo na Esplanada, ameaçando jogar na fogueira os parlamentares que não rezarem por sua cartilha. Fazem cerco ao Congresso para reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas, desprezando estudos que demonstram o impacto da medida sobre o sistema produtivo: aumento de 8% no custo de produção. Quem for contra a bandeira das 40 horas poderá ter o nome exposto em praça pública como traidor da Pátria. O ideário trabalhista no País vive preso no curral antiquado da CLT, sem receber o oxigênio modernizante que toma conta dos pulmões do trabalho em nações desenvolvidas. O cabresto das centrais segura o burro do trabalho, tirando-o do caminho dos avanços. Políticos e empresários morrem de medo da "guerra do barulho" travada pelas endinheiradas máquinas sindicais. O mapa institucional está cheio de furos. As tentativas de tapá-los são inconsistentes e até grotescas. O Senado atravessa um calvário sem fim. Agora, prega-se o resgate da ética pela extinção do Conselho de Ética. O argumento é o de que parlamentar não pode julgar colega. Mais uma asneira. Será que ninguém pensou na montanha de processos que chegaria ao STF? A judicialização tomaria conta da política. Quanta falta de senso. Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político 15 April O salário do professor e o celular do senador A carta do professor Marco Antônio Nunes, de Pindamonhangaba, publicada
em 9 de abril no Fórum dos Leitores, nesta página A2, sob o título O
povo paga, resume os males do Brasil de hoje como no passado resumia o
slogan de Jeca Tatu: "Muita saúva e pouca saúde os males do Brasil
são." Ele escreveu: "A filha do senador gastou em ligações de celular,
durante alguns dias de passeio pelo México, R$ 14,7 mil, a mesma
importância que ganhei durante todo o ano de 2008 como professor
aposentado do Estado de São Paulo, após 30 anos de magistério." Difícil encontrar exemplo melhor do contraste fatídico de nossa história nacional da infâmia: de um lado, a modéstia (melhor dizer miséria) com que o Estado brasileiro remunera os profissionais responsáveis pelo maior patrimônio de uma comunidade na sociedade da informação: a educação. Do outro, os privilégios com que se refestela a casta política dirigente, em especial a que participa das decisões do Poder tido como popular por excelência, o Legislativo, que reúne os representantes da cidadania. Esta é a curta e grossa história de uma injustiça que se encerra aí, do ponto de vista do signatário da carta e de seus colegas de ofício. Professores são fruto da precariedade da educação neste país desde a própria infância, durante a qual são vitimados pelos defeitos sistêmicos de uma escolaridade deficiente: quase nada aprenderam nas escolas que frequentaram e ganham uma ninharia para ensinar o pouco que sabem nos estabelecimentos em que são empregados. No meio do caminho, não são treinados nem estimulados. Do lado abastado, contudo, o episódio tem desdobramentos. Tião Viana não é um qualquer, mas um senador. A palavra que lhe define o ofício vem da latina senior, que significa mais velho. Não conota idade provecta, mas condição respeitável. Os mais velhos mereciam respeito nas tribos primitivas por causa de sua experiência, o que os tornava capazes de aconselhar os mais jovens - seu dever era evitar que as gerações inexperientes repetissem os erros deles. O Senado romano reunia os patrícios mais respeitáveis para conduzir os negócios republicanos, ou seja, da coisa pública. Nas democracias de poder tripartite e representação bicameral, como pretende ser a nossa, os senadores são representantes das unidades federativas, os Estados. Misturam-se, no modelo imitado do sistema bicameral adotado pelos Pais Fundadores da Revolução Americana por nossos constitucionalistas de antanho, o mando romano e a estirpe nobre dos barões britânicos. Pode-se argumentar que, já entre os romanos, nem sempre a respeitabilidade era sinônimo de superioridade, como o demonstram conspirações, caso da que terminou por abater Júlio César sob a estátua de Pompeu, à entrada do edifício onde se reuniam os senadores, frequentado por serpentes afiadoras de punhais. E que o sangue azul dos lordes ingleses não garante sua nobreza de atitudes, não sendo a Câmara de Lordes, assim como o Senado americano, um convento habitado por freirinhas virtuosas, como lembrou anteontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, referindo-se à nossa República cá. Isso não quer dizer, contudo, que a lenda segundo a qual não existe pecado no lado de baixo da linha do Equador, corrente desde a Renascença, permita um acréscimo de letras capaz de transformar o que não é convento num conventículo, sinônimo pouco empregado de prostíbulo. A imagem é pesada demais, é certo, mas a verdade é que, como Catilina, o senador romano, seus colegas de ofício no Brasil contemporâneo têm abusado demais da paciência dos cidadãos que lhes sustentam os luxos e caprichos sem receber em troca o exemplo de decência e austeridade que de todos eles é lícito esperar. O senador Tião Vianna (PT-AC), por exemplo, não tem o couro cabeludo ornado por cãs que permitam classificá-lo como sênior (mais velho), mas é um senador tido como respeitável. Quando enfrentou José Sarney, a velha raposa do Maranhão, Amapá e adjacências, aparentava representar as forças do Bem contra as hordas do Mal. Não hesitou, contudo, em emprestar o telefone móvel com conta paga pelo contribuinte à filha, em seu passeio turístico pelo México. Da viagem de 20 dias resultou uma conta de R$ 14,7 mil, equivalentes aos 13 salários pagos pelo Estado ao professor veterano no ano passado inteiro. A conta passaria em branco se não fosse a desídia provocada pela cizânia: adversários da pretensão presidencial do acreano fizeram a notícia vazar para a imprensa, que a divulgou, cumprindo seu dever - embora disso discordem os presidentes do próprio Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). Apanhado em flagrante delito, o protagonista do caso infame comportou-se como se espera de um político brasileiro contemporâneo, não como teria de fazer um "varão de Plutarco", denominação de quem conquista o respeito pelo mérito: jurou que nunca havia emprestado antes seu celular a ninguém e disse que só o fez por "instinto paternal". Melhor pai teria sido se não houvesse emprestado, como nunca fizera antes, o telefone de conta pública à filha, presenteando-a com um aparelho particular. Assim, teria evitado protagonizar um episódio condenável e não seria flagrado em concessão de privilégio a parente, que os cardeais de antanho mais atribuíam a sobrinhos que a filhos (nepotismo vem de nepos, sobrinho do papa). O senador pagou a despesa, mas não se livrou do mico. Seus colegas agiram como comparsas: não poderiam condená-lo, pois em 2008 gastaram R$ 8 milhões em contas telefônicas pagas pelo público, o que representa a média de R$ 6 mil por mês para cada. E mandaram investigar o responsável pelo vazamento - mais uma característica doentia de nossas instituições, esta de que não há crime pior que a indiscrição. José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde ESTADÃO 15 März O cacarejo na política O governador paulista acertou na mosca, ou melhor, na galinha quando
diz que o PT desenvolveu um extraordinário talento mercadológico, ponto
fraco de seu PSDB. E lembra os estilos da galinha e da pata para
comparar os dois partidos: a primeira põe um ovo pequenino, mas
cacareja e todo mundo vê, enquanto a segunda põe um ovo maior e ninguém
nota. O ovo da pata, segundo os nutricionistas, é mais completo que o
da galinha, mas é este que gera atenção, intenção, desejo e ação - a
fórmula AIDA - para estimular seu consumo. E o êxito se deve porque a
fêmea do galo sabe alardear seu produto, cumprindo rigorosamente o
preceito maquiavélico: "o vulgo só julga aquilo que vê." José Serra
vocaliza aquilo que a nossa cultura política, mais que outra,
internalizou, e cuja síntese é a máxima do filósofo canadense Marshall
McLuhan nos anos 60: "o meio é a mensagem." Para compreender como o cacarejo adquiriu importância central na política, é oportuno lembrar as tintas que desenham nossa identidade. Os estudiosos do ethos nacional costumam apontar, entre os valores que o plasmam, a falta de precisão, a adjetivação excessiva, o individualismo, a propensão ao exagero. Somos um povo de linguagem destemperada e de pensar fluido, indeterminado, misterioso. Por isso o Brasil passeia na gangorra, ora sendo o "melhor dos melhores", ora figurando no pior dos mundos. Ainda como pano de fundo para a verborragia, o País manteve, apesar da dimensão continental, a unidade linguística, o que facilita a capilarização de ideias e robustece a matriz do pensamento. Sob essa configuração, tem sido fácil aos nossos governantes por um aditivo no verbo e exagerar o tamanho de seus esforços. Por isso, em relação aos feitos administrativos, a verdade acaba bem antes do final dos relatos. Antes mesmo de divisarmos as primeiras pontes que nos conduziram ao Estado-Midiático da era moderna, nossos mandatários, com muito cacarejo, acrescentavam palmos de altura ao seu tamanho, elevando as benesses dos governos e a grandeza das nações. Basta olhar para os contornos do Estado Novo, emoldurados pelas cores do Departamento de Imprensa e Propaganda getulista. Mergulhamos nas águas do Brasil potência, sob a onisciente comunicação do ciclo militar. Resgatamos os albores democráticos, a partir de 1986, com o governo Sarney, ouvindo mais uma vez cacarejos que vendiam as glórias de planos econômicos. Falácias acabaram frustrando o povo. Perplexos, assistimos ao marketing exacerbado do furacão Collor, até aportarmos, esbaforidos, na atual estação, em que um palanque permanente nas ruas foi estrategicamente armado pelo presidente Lula. Cada qual com seu modelo de entoar "causos", soltar recursos e amarrar apoios, os governos do ciclo da redemocratização descobriram o marketing como arsenal de batalha. Mas Luiz Inácio quer fazer do impossível o possível. Não é o PT, conforme diz Serra, mas Lula, o autor de um marketing devastador. O ex-sindicalista dá um banho em Getúlio, um sábio na arte de fazer firulas para as massas. A metamorfose provocada pelo verbo lulista é tão extraordinária que poucos se ligaram à encrenca da semana: o PIB desaba no 4º trimestre, com queda de 3,6%, a maior em 12 anos, mas o País continua exposto como vitrine mundial de combate à crise. Verbo todo dia e verba toda hora canibalizam discurso contrário. O tom é dado pelo maestro. Com seu jeitão, Lula deixa Temístocles encabulado. O altivo ateniense não era de cacarejar. Convidado para tocar citara numa festa, o general declinou: "Não sei música, o que sei é fazer de uma pequena vila uma grande cidade." Regra geral, nossos governantes das três esferas federativas, afinando o tom com o maior dos tocadores, não hesitam em aceitar convites para manejar cítara, clarineta ou trombone. Abandonam o foco. Grande parte prefere trombetear no marketing que fazer de suas cidades e Estados territórios desenvolvidos e civilizados. Muitos se inebriam nas fontes do poder. Esquecem do ensinamento de Gogol: "Não é por culpa do espelho que as pessoas têm uma cara errada." É a ruína que o modelo pirotécnico de administrar oferece ao Brasil. Não se questiona a necessidade do governante de comunicar ao povo ações e diretrizes de governo. É dever dos mandatários prestar contas de seus atos, o que exige boa comunicação. Não deve haver oposição à decisão de quem usa o canal legítimo, com mensagem apropriada, no momento propício e para atingir a públicos adequados. O que é mensagem apropriada? Na seara dos partidos, é a expressão de propostas. O que é desapropriado? O uso do palanque todo tempo, com venda de ilusões e apelos implícitos (ou explícitos) em direção aos votos. Quanta desfaçatez ilustra as imagens jornalísticas. Olhem para as mulheres campesinas, que realizaram um "devastaço" no Dia Internacional da Mulher. Não vestiam roupas franciscanas, modestos vestidos remendados. A estética da destruição de propriedades não exibia a imagem que nossa memória guarda, de pessoas necessitadas, simples, feições sofridas, pedindo "um pedaço de pão pelo amor de Deus". Ali desfilavam mulheres jovens, aparentando vigor, disposição, todas embrulhando as faces em exuberantes lenços coloridos, mais parecendo adereços descolados de butiques. Tal simbologia, regada de signos elitistas e impregnada do marketing espetaculoso, condiz com o traço revolucionário dos movimentos sociais? E o que dizer dos jovens e entusiasmados quadros que militam no Ministério Público e na Polícia Federal? O bem que fazem ao País, quando procuram extirpar os tumores e paralisar a metástase, é corroído, não raras vezes, por luzes midiáticas e pelo crescente hábito de cacarejar. É triste ver massas de fervor cívico enfeitando as bandeiras da espetacularização. Que o Brasil precisa ser retocado na bigorna da moral ninguém duvida. Que isso se faça, porém, sob uma postura pública séria e responsável. Com menos alarido de galinha e mais recato de pata. Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, é consultor político ESTADÃO 01 März O gesto e a palavra Andou na moda falar de decoupling para dizer, em simples português,
descolamento entre a economia brasileira e a internacional. Os efeitos
da crise em nossa economia fizeram o termo sair de moda. Foi
substituído por termo mais terno, "marolinha". Com o bicho-papão
corroendo o mercado financeiro lá fora (na verdade, o sistema
financeiro central quebrou) há certo aturdimento. Não se sabe com que
palavras qualificar o que anda pelo mundo: recessão prolongada,
depressão, fim do unilateralismo americano na política,
multipolaridade, não-polaridade, etc. Por aqui o governo prefere passar
em marcha batida sobre o que nos azucrina. Em vez de desenhar quadros
sombrios ou róseos para o mercado, faz o decoupling à moda brasileira:
descola a economia da política, precipita o debate eleitoral e, nele,
vale o discurso vazio. É verdade que não somos os únicos a encobrir as angústias apelando para gestos sem conotação, sequer alusiva, aos fatos e circunstâncias. Basta mencionar a campanha bolivariana pela reeleição perpétua, uma quase-caricatura da política. O significado da democracia se esboroou na "consulta popular". Se o povo quer o bem-amado para sempre, pois que o tenha e, como disse nosso presidente Lula, se a prática ainda não é boa para o Brasil, é questão de tempo. Quando a cidadania amadurecer, encontrará a fórmula de felicidade perpétua... Assisti na TV, por acaso, ao último comício eleitoral do presidente Chávez em Caracas e, confesso, fascinei-me. Ele chegou, simpático como sempre, um pouco mais gordo que o habitual, vestindo camisa-de-meia vermelha, abraçando toda a gente, sorrindo, e foi direto ao ponto. "Hoje não falarei muito, vamos cantar!", disse. E entoou uma canção amorosa de melodia fácil, repetindo o refrão "amor, amor, amor..." Conversou com um ou outro no palanque, incitando-os a também cantar, falou familiarmente com a plateia e finalizou: amor é votar sim no domingo! Por mais que no plano pessoal possa sentir até estima pelo personagem, não pude deixar de reconhecer no estilo algo que nos é habitual: o modelo Chacrinha de animação de auditório. Funciona, e como! O descolamento entre a política e a realidade das pessoas (não só a economia), a repetição simbólica de gestos que guardam pouca relação com um ambiente racional, mas "ligam" o ator com a plateia e com a "sociedade", está se tornando regra nas atuais democracias de massas. Há algo de encantatório no modo como a política do gesto sem palavras (ou em que as palavras contam menos do que a forma) funciona, substituindo o discurso tradicional. Quando me recordo do "sangue, suor e lágrimas" dito por Churchill ao se tornar primeiro-ministro em plena guerra contra o nazismo, do discurso em Fulton, quando disse que uma "cortina de ferro descia sobre a Europa", ou de vários pronunciamentos de Roosevelt, como o de posse em plena Depressão, célebre pela frase "nada há a temer, exceto o próprio medo", ou ainda de Getúlio Vargas no estádio do Vasco da Gama apelando aos trabalhadores, e comparo com a retórica atual, há um abismo a separá-los. E não se diga que é fenômeno de países de "democracia pouco amadurecida". A entronização de Obama como imperador de todos os americanos, na magnífica posse no Capitólio, assemelhava-se a uma grande cena romana. O cenário era tão expressivo, a fusão simbólica do recém-eleito com os founding fathers e com os valores fundamentais da democracia americana eram tão fortes que obscureceram o conteúdo do discurso inaugural. E isso no caso de alguém que, por sua cor e mesmo por sua campanha, trouxe um significado imenso de renovação. Ainda na semana passada, na primeira visita presidencial ao Congresso, o que foi dito sobre a crise econômica e sobre o futuro foi menos importante do que o reafirmar o "yes, we can", num cenário da pátria unida para perpetuar sua glória. Mesmo que o castelo financeiro esteja desabando, a América vencerá, era a mensagem. No caso, nada que ver com Chacrinha, o símile é outro: a invocação do pastor, a reafirmação da fé, e não a troca simbólica de favores, do bacalhau, da Bolsa-Família ou da canção de amor. Faço estes comentários despretensiosos porque me preocupa o que possa vir a ocorrer no Brasil. A mídia e a sociedade cobram um discurso de oposição. Diz-se, e é certo, que ela deve unir-se se quiser vencer. Mas que discurso fazer? O racional, da crítica ao desmanche das instituições, do enlameamento cotidiano da política, deveria ganhar mais vigor, dizem. O grito de Jarbas Vasconcelos estava parado no ar e sua entrevista na Veja deu-lhe um sopro de vida. Mas foi o próprio senador quem mostrou os limites desse tipo de protesto: o governo e o próprio presidente banalizaram o dá-cá-toma-lá. É como nos computadores, quando se envia um e-mail e surge o aviso: a caixa está cheia. A caixa da revolta dos brasileiros contra o mau uso da política parece estar cheia. Temo que qualquer discurso "político" seja logo desqualificado pelos ouvintes. Quer isso dizer que as oposições devem silenciar sobre a perda de substância das instituições, sobre o clientelismo e a corrupção larvar, tudo com a leniência de quem manda? Não. Mas precisam inventar uma maneira de comunicar a indignação e as críticas que toque na alma das pessoas. Este é o enigma da mensagem política, de governo ou de oposição. Tanto o modelo Chacrinha como o do discurso de pregador chegam à alma das pessoas. Não estou dizendo que a comunicação política se resolve pela supressão do discurso analítico. Isso seria rendermo-nos à ideia da política como mistificação (o que, aliás, não é o caso de Obama). Mas quando se dispõe de um ícone, como o Plano Real, por exemplo, ou quando o próprio candidato é um ícone, tudo fica mais fácil. Em nosso caso, as oposições, além de articularem um discurso programático, condição necessária para quem se respeita e acredita nas instituições, deverão expressá-lo de forma a sensibilizar o eleitorado. Para tal não bastam a crítica convencional e a discussão da política, tal como ela ocorre no Congresso, nos partidos e na mídia. É preciso buscar os temas da vida que interessem ao povo. Ademais, a comunicação emotiva requer "fulanizar" a disputa para atribuir ao candidato virtudes que despertem o entusiasmo e a crença. Sem eles, a "caixa de entrada" das mensagens da sociedade continuará a dar o sinal de estar cheia e os ouvidos continuarão moucos aos conteúdos, por melhores que sejam. Pior ainda se não os tivermos. Mas só eles não bastam. Programa político só mobiliza a sociedade quando é vivido por intermédio do desempenho de personagens que tratam como próprias as questões sentidas pelo povo. Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República ESTADÃO 02 Februar Um modelo de sucesso As universidades estaduais paulistas comemoram hoje 20 anos de vigência
de sua autonomia. Passadas essas duas décadas, a Universidade Estadual
Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), a Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e a Universidade de São Paulo (USP) se orgulham não
só de celebrar esta data, mas também de apresentar os importantes
resultados por elas obtidos, os quais são indissociáveis da aplicação
desse modelo. A concepção da autonomia universitária se baseia na ideia da liberdade didático-científica construída de diferentes formas pelas sociedades ocidentais a partir do Renascimento, o que inclui o pressuposto de que a edificação do saber com base no pensamento crítico e universalista seja feita sem nenhum tipo de tutela. As principais universidades do mundo tornaram-se estruturas de ensino e pesquisa de grande complexidade graças não só ao acelerado avanço do conhecimento nas últimas décadas, mas também às demandas públicas que se lhes apresentaram, com particular ênfase nos países em desenvolvimento, quase sempre com vinculações sociais diretas e compromissos que vão muito além de suas atividades originais. Essa complexidade de estruturas e sua multiplicidade de áreas do conhecimento exigem também a autonomia de gestão orçamentária, financeira e patrimonial. No Brasil, prevista inicialmente na reforma do ensino superior por meio da Lei nº 5.540, de 1968, a autonomia universitária foi consagrada 20 anos depois na Constituição federal. Seu artigo 207, com as alterações da Emenda Constitucional nº 11, de 1995, estabelece: "As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão." Em 2 de fevereiro de 1989, pelo Decreto nº 29.589, o governo do Estado de São Paulo estabeleceu que "os órgãos da Administração Centralizada do Estado adotarão procedimentos administrativos cabíveis para viabilizar a autonomia das Universidades do Estado de São Paulo". Esse dispositivo foi reforçado pelo artigo 254 da Constituição do Estado, promulgada em 5 de outubro do mesmo ano pelo Legislativo paulista. Com base nesse decreto, Unesp, Unicamp e USP passaram a ter suas dotações orçamentárias definidas com base num porcentual fixo da arrecadação do ICMS, que desde 1995 é de 9,57%, cabendo às três universidades passarem a executar seus recursos de acordo com seu próprio planejamento e com os programas e projetos definidos por seus órgãos colegiados, sem restrições burocráticas ou políticas. Essa autonomia, no entanto, não pode ser confundida com soberania, pois toda a aplicação de recursos é fiscalizada e auditada pelo Tribunal de Contas do Estado. A adoção desse modelo em São Paulo ocorreu num momento em que instituições governamentais e multilaterais já vinham monitorando não só o desempenho da produção científica internacional, mas também sua estreita relação com o desenvolvimento da economia. Em função disso, investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento não são feitos somente por países como Suécia (3,7% do PIB em 2006), Finlândia (3,4%), Estados Unidos (2,6%), Japão (3,2%), Alemanha (2,5%) e França (2,1%), mas também por aqueles que buscam com agressividade a competitividade no comércio exterior, como Coreia do Sul (2,9%), Cingapura (2,2%) e China, que saltou do nível de 0,6% do PIB em 1996 para 1,4% em 2004. No Brasil, os investimentos em ciência e tecnologia mal ultrapassaram o nível de 1% do PIB. Apesar disso, nossa produção científica mais do que triplicou nas duas últimas décadas. O País respondia nos anos 1980 por cerca de 0,6% da publicação mundial de trabalhos em periódicos científicos de padrões internacionais, mas fechou 2007 com um índice de 2%. Nesse contexto, o desempenho das três universidades estaduais paulistas desde 1989 foi muito superior ao crescimento real de 37% da sua dotação orçamentária no mesmo período. Na pesquisa, grande parte do salto brasileiro apontado se deveu a essas três instituições, às quais correspondem 44% da produção nacional de trabalhos científicos de padrão internacional, destacando-se a USP, com 28%. Na média das três instituições, o número de alunos matriculados na graduação cresceu 85% - a Unicamp aumentou em mais de cinco vezes as suas vagas no período noturno. Na pós-graduação, as matrículas cresceram em média 86% nos mestrados e 229% nos doutorados, ressaltando-se na Unesp o aumento para 728% dos doutores em formação. Nesse mesmo período, as três instituições incorporaram milhares de projetos de extensão, ampliando cada vez mais a sua relação com a comunidade. Esse desempenho inquestionavelmente superior aos investimentos se deveu a muitos fatores, entre eles a determinação de muitos docentes, pós-graduandos e servidores técnico-administrativos. Mas ele jamais teria sido possível se as três universidades estaduais paulistas continuassem a depender da liberação de recursos pelo Estado e não pudessem remanejar sua programação orçamentária nem gerir seus recursos financeiros com base no comportamento da economia. Muito mais do que comemorar uma efeméride, o que fazemos hoje é homenagear a sociedade paulista por assegurar a manutenção da autonomia universitária, reconhecendo entre suas principais contrapartidas o dever de eficiência e a responsabilidade. Herman Jacobus Cornelis Voorwald, reitor da Unesp, é presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas José Tadeu Jorge é reitor da Unicamp Suely Vilela é reitora da USP ESTADÃO 12 Januar Exuberância e miséria Agora está explicado. O presidente da República é um otimista
incorrigível porque não lê jornais e revistas. Sem o coquetel cotidiano
de informação e análise, Lula se livra do "problema da azia", como
confessou à revista Piauí, podendo esbanjar permanente sorriso e
externar confiança extrema nas coisas em que acredita. Agora se
compreende a razão por que S. Exa., à imagem e semelhança de Deus,
passa a impressão de que escreve certo por linhas tortas. Errados são
os que se dedicam ao exercício da leitura dos textos da imprensa.
Leitores que se deparam com a manchete de que a produção industrial
acaba de levar o maior tombo em 13 anos não podem ver nisso motivo de
apreensão, se guiados pela ótica presidencial. É apenas a onda de uma
"marolinha que não serve nem para surfar". E ninguém ouse dizer que a
área onde o torneiro mecânico Luiz Inácio aprendeu o primeiro ofício
está em crise, mesmo diante da capotagem da fabricação de automóveis:
recuou 34,2% em novembro, a maior queda desde 1991. Se lhe perguntarem,
a resposta será um paliativo: trata-se de um leve freio de arrumação. Menos, presidente. Neste momento, a situação do País está a exigir bom senso. Há uma tempestade em plena gestação. Os discursos, mesmo recheados de arroubo, não conseguirão evitar a avalanche. As crises, como se sabe, agregam fatores de natureza psicológica e, nessa vertente, é compreensível o esforço do comandante de uma nação para elevar o ânimo social e promover a articulação das energias em torno do bem-estar coletivo. Estribado na montaria do carisma e na alta popularidade, Lula convocou a população a ir às compras no final de ano. O resultado ficou aquém do esperado (alta entre 3,5% a 5%), a denotar que o brasileiro sabe distinguir a linha da verdade entre as curvas apelativas para explicar o tamanho da crise. Transparece a incongruência do comandante-em-chefe quando incute nas pessoas a ideia de que o Brasil é um motor de arranque no mundo que puxa para trás uma locomotiva financeira que, segundo Henrique Meirelles, presidente do BC, já queimou US$ 29 trilhões. Compreende-se que Luiz Inácio, em desabafo, divise "olho gordo" nos grupos que desejam vê-lo "lascado", conforme garante. O presidente Fernando Henrique queixava-se de "fracassomaníacos" que torciam contra seu governo. Se, como já disse Clausewitz, a guerra é uma mera continuação da política, por outros meios, e sabendo-se que na arena brasileira os conflitos não dão trégua, é provável que a bandeira de destroços esteja permanentemente desfraldada sobre os governos. Ocorre que a doença que ameaça corroer a economia brasileira não pode ser ruim para uns e boa para outros. Todas as partes do corpo nacional sofrerão mazelas. Este é o foco da mensagem que se espera de Lula e dos homens públicos. Não dá mais para enganar. Nunca foi tão premente jogar a lupa sobre os espaços nacionais. O presidente não conseguirá sobrepor a imagem do Brasil virtual ao Brasil real, nem as oposições obterão êxito com a crítica de que tudo está errado. A tentativa de arrumar o caleidoscópio com o traçado da verdade pode começar com esse tal de PAC, o Programa de Aceleração de Crescimento, que se veste, a cada dia, com o manto da panaceia. Para uns, será a "salvação da lavoura" da presidenciável ministra Dilma Rousseff, se, claro, as obras obedecerem ao calendário. Para outros, a continuar empacada, essa montaria, sem liderar a corrida na pista, pode jogar a mãe das obras do governo no despenhadeiro. O primeiro ajuste é para tirar a politicagem desse plano, selecionando obras prioritárias nos lugares adequados e na agenda possível. Sem dedo político e favorecimento a grupos estaduais. A segunda correção pontual aponta para o colchão social. A controvérsia, nesse ponto, sobe ao cume da montanha. Hoje, 11 milhões de famílias recebem o Bolsa-Família. E a fila para entrar no programa é de 2,2 milhões. Trata-se de um programa sui generis. O País cresce. A economia amplia seu raio de ação. Mas a cada ano, em vez de diminuírem, os desamparados aumentam. Que lógica é essa? Pessoas assistidas deveriam, ao correr do tempo, procurar a porta de saída do assistencialismo. O programa contribuiu para trazer milhões de brasileiros à mesa do consumo. Os efeitos perversos, porém, multiplicam-se. Um olhar sobre a paisagem nordestina, neste final de ano, flagra o crime perpetrado por esse tipo cego de paternalismo. Multidões de pessoas ociosas se multiplicam na paisagem. Há relatos de trabalhadores que rejeitam a carteira assinada para não perder o benefício. Prefeitos procuram mão-de-obra para os serviços municipais. Não conseguem. A criminalidade se expande. Duas são as razões: a migração de gangues do Sudeste, que descobriram o Nordeste como espaço ideal para as ações criminosas; e a descoberta do celular por grupos de jovens - muitos beneficiados pelo Bolsa-Família - para negociar sequestros relâmpagos e comercializar drogas. Em Jardim de Piranhas (RN), na região do Seridó, cidade de 8 mil habitantes, 58 carros de luxos entopem as ruas. Fazendeiros se locomovem com proteção armada. Em Timon (MA), cartões do programa foram parar no comércio de drogas. Na Bahia, carteiros se negam a entrar em determinados bairros. A violência se expande na região sob o colchão amortecedor do governo Lula. Se os traços do paternalismo e da ociosidade matizam a cultura nordestina, hoje encontram fortes eixos de apoio. A radiografia deveria flagrar todos os espaços. Nas estradas federais, onde o governo investiu apenas 15% do previsto no Orçamento para 2008; no sistema de saúde, que continua à míngua; na melhoria da educação; na gigantesca ausência de saneamento básico. Se Lula quer enxergar a verdade, precisa abrir os olhos e os ouvidos para a mídia. Um pequeno conselho ao presidente pode ser útil: é preferível ganhar uma "azia" ao tomar conhecimento do que acontece na sua administração a sofrer uma trombose ao perceber que o Brasil real é menor que o paraíso virtual de seus sonhos. Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político ESTADÃO 11/01/2009 09 Dezember Arte de falsário O subprime foi um gigantesco esquema de Ponzi - fraude em que, como na
corrente da felicidade, ganha quem joga, até que a pirâmide invertida
venha abaixo. Enquanto a bolha imobiliária americana cresceu, credores
emitiram hipotecas ao deus-dará, bancos as empacotaram com emissão de
títulos, que gestores de recursos compraram com dinheiro emprestado,
contabilizando lucros não realizados. Fortunas se criaram e se
perderam, mil vezes maiores que os US$ 50 milhões que Van Meegeren
ganhou falsificando quadros de Vermeer e vendendo-os a museus na
Holanda e a nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Frank Wynne conta
essa história em Eu Fui Vermeer. De Beny Parnes, estrategista-chefe do BBM Investimentos, recebi o livro e a recomendação de traçar paralelos entre os desvarios do mercado financeiro na última década e os do falsário holandês na metade do século 20. O sucesso do falsário depende de dois elementos: avanço da tecnologia e desejo da vítima de se deixar enganar. O avanço técnico no caso de Meegeren foi a baquelita, primeiro plástico para fins comerciais, que lhe permitiu substituir o óleo vegetal como veículo na pintura. Com ela obteve o endurecimento da tinta, necessário para mantê-la inalterada em testes de autenticidade. No caso do esquema financeiro, a inovação tecnológica combinou derivativos com artimanhas de controle de risco, como a securitização que transformava em títulos AAA empréstimos hipotecários - cuja qualidade era tão ruim que até mesmo Alan Greenspan, depois do desastre consumado, se confessou em estado de choque. Quanto ao segundo elemento necessário ao seu sucesso, Van Meegeren encontrou-o no desejo dos críticos de descobrir quadros de um período intermediário na obra de Vermeer. Apesar da pequena produção do pintor seiscentista, existe uma disparidade gritante de estilo e tema entre Diana e suas Companheiras (obra do artista jovem) e A Leiteira (o primeiro trabalho da maturidade). No vazio entre um e outro, os críticos imaginaram um Vermeer desaparecido, que uniria as duas fases. O falsário identificou o desejo dos críticos e o realizou. "Falsificações são um retrato cambiante dos desejos humanos. Cada sociedade falsifica as coisas que mais cobiça", argumenta Mark Jones em The Art of Deception. No começo do século 21 o desejo era o de uma vida incompatível com os ganhos da economia real. A ganância incitava a crença na ausência de riscos, na morte do ciclo de negócios e no céu como limite para as taxas de crescimento. Beny Parnes observa: "Os agentes financeiros sabiam o que faziam. Ou quase todos. Com certeza não faltava consciência de seus próprios atos aos empacotadores de hipotecas e aos bancos que colocavam esses pacotes em suas carteiras de investimento. Os compradores dos ativos suspeitavam do que estava acontecendo. Mas o desejo de altos rendimentos gerava a crença em hipóteses bobas sobre risco e o incentivo para entrar no negócio e comprar o Vermeer de Meegeren." Como dizia Maquiavel, "quem trapaceia sempre encontra quem se deixa trapacear, porque os homens cedem prontamente a desejos momentâneos". A diferença entre a experiência dos falsários de hoje e a de Meegeren está na seqüela da trapaça. Meegeren agiu como indivíduo isolado. Preso, e depois absolvido, causou prejuízos e decepção a museus e seus freqüentadores, mas não um desastre econômico. No século 21 a ação coletiva de milhares de investidores produziu uma bolha hipotecária que mudou a alocação de recursos e terminou em catástrofe para o globo. Nos EUA os economistas esperam a pior recessão desde a década de 1950. A queda da bolsa indica que os investidores apostam numa recessão profunda e severa, ainda pior que a do início da década de 1980. Os gastos dos consumidores apresentaram queda pelo quarto mês consecutivo em outubro. O mercado imobiliário ainda não se estabilizou e os preços das casas são hoje 20% mais baixos do que no pico de 2007. Apenas em novembro de 2008 se perdeu mais de meio milhão de empregos. Com más notícias se multiplicando a cada dia, como manter a calma? A boa nova é que, pelo menos, o momento mais assustador da crise financeira ficou para trás (embora seus custos recessivos estejam apenas começando). A taxa Libor, que um banco oferece a outro, caiu abaixo do nível de pânico a que chegou logo após a bancarrota do Lehman Brothers. Calcula-se que o valor necessário para resolver os problemas no mercado de CDS (swaps de crédito cujo montante é de US$ 55 trilhões) chegue a 1,5% dessa quantia, ou seja, menos de US$ 1 trilhão. É muito dinheiro. Mas o PIB americano de um mês é maior. Portanto, não é fatal. No Brasil, duvide de quem lhe promete um PIB crescendo a 4% em 2009. Mas desconfie dos alarmistas também. Parte do pessimismo deriva do sentimento de perda produzido por prejuízos financeiros volumosos, lembrou Oswaldo Assis, sócio do Banco Pactual, em seminário na USP na semana passada. Vale lembrar que o mercado financeiro no Brasil apresenta características muito diferentes das do mercado americano: compulsório alto, crédito imobiliário pequeno, securitização e alavancagem baixas. As operações de balcão não registradas são pequenas. Não há mercado de CDS, as seguradoras são rentáveis. Em resposta à redução do nível de atividade o Banco Central pode cortar a Selic, mesmo que a inflação não fique no centro da meta. Nos EUA, o Fed anunciou que o encontro de dezembro deve durar dois dias, em vez de um - preparando, talvez, novo plano para ressuscitar o crédito. Dentro de 40 dias os EUA darão posse ao novo presidente, que chega com um pacote fiscal de US$ 700 bilhões em investimentos para reanimar a economia. Torço pelo seu sucesso, pois a evolução desta crise deixou claro que o que acontece por lá repercute aqui. Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGV Site: www.elianacardoso.com Estadão 08/12/2008 29 November 2 789 toques Paul Krugman, o Nobel de Economia, recomenda gastar alopradamente. Eu
recomendo o oposto: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? O
Nobel de Economia ou o Jabuti de 1990? Paul Krugman é colunista do New York Times. Eu sei o que acontece com ele, porque é o mesmo que acontece comigo. Uma coluna tem mecanismos próprios. A gente aprende a esgotar todos os assuntos numa tacada só, limitando-os a um determinado número de toques. Meus pensamentos restringem-se a 2 789 toques. Menos do que isso, me embanano. Mais do que isso, eu murcho. O assunto pode ser Aristóteles ou uma torneira gotejante na pia do banheiro: o que tenho a dizer sobre eles se encerra rigorosamente depois de 2.789 toques. Para o colunista, o essencial é eliminar qualquer sombra de ambigüidade. Dou um jeito de solucionar a crise da economia mundial numa única coluna, com um único argumento. Paul Krugman também. Um colunista é um Cafuringa, que corre olhando para a bola até sair pela linha de fundo. Daí a receita peremptória do Nobel de Economia: gastar alopradamente. Daí a receita peremptória do gordinho indolente: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? Nenhum dos dois. Um colunista nunca pode estar certo. Em outubro, num artigo sobre o estado calamitoso da economia americana, Paul Krugman afirmou: "Somos todos brasileiros". Ele se referia ao fato de agora os Estados Unidos sofrerem o contágio dos mercados, como um país do Terceiro Mundo, como o Brasil. Se os Estados Unidos real-mente se transformaram num Brasil, Paul Krugman, com seus planos espalhafatosos, é o Luiz Gonzaga Belluzzo deles. E os brasileiros sabem que um Luiz Gonzaga Belluzzo sempre acaba encontrando seu Dilson Funaro. O Dilson Funaro americano só pode ser Lawrence Summers, o principal conselheiro econômico de Barack Obama. Ele concorda com Paul Krugman que a saída para a crise é inundar a economia com dinheiro público. Ele concorda igualmente que é melhor gastar de mais do que gastar de menos, sem dar a menor pelota para o rombo nas contas. Assim como Paul Krugman, Lawrence Summers também se tornou um colunista. No caso, do Financial Times. Nessa economia gerida por colunistas, aboliram-se todos os conceitos mais simples e, por isso mesmo, intelectualmente mais enfadonhos: corte de gastos, disciplina fiscal e aumento de impostos, que implicam um período de ajuste, com arrocho salarial, desemprego em massa e quebradeira generalizada. É complicado comparar um lugar ao outro. Os Estados Unidos tomam dinheiro emprestado com juros iguais a zero, o Brasil paga 15%. Eles planejam gastar em investimentos, a gente gasta com custeio. Mas, se Paul Krugman está certo e os Estados Unidos de fato se transformaram num Brasil, o futuro da economia mundial está garantido: sairemos, com bola e tudo, pela linha de fundo. Diogo Mainardi VEJA 15 November Como acabei no New York TimesSylvester Stallone fez uma ponta inglória em Bananas, de Woody Allen.
Eu fiz uma ponta igualmente inglória em Deu no New York Times, de Larry
Rohter. Na comédia de Woody Allen, Sylvester Stallone é um brutamontes
que tenta roubar a bolsa de uma velha de muletas. No livro de
reportagens de Larry Rohter, eu sou um colunista que especula
desajuizadamente sobre o consumo alcoólico do atual presidente da
República, cujo nome, a esta altura, em fim de mandato, já consegui até
eliminar da memória. Como é mesmo? Lula! Pronto, lembrei: o nome dele é
Lula! Eu ando incomodado com o New York Times. A cobertura que o jornal fez da campanha eleitoral americana furtou-se cuidadosamente a abordar assuntos que poderiam prejudicar a candidatura de Barack Obama. Larry Rohter foi o correspondente do New York Times no Brasil por oito anos. Ele sabe como é a nossa imprensa. Em Deu no New York Times, ele mostra como, ao contrário do que acontece na imprensa brasileira, a imprensa americana acredita que um governante tem de ser submetido a uma profunda devassa, tanto de sua vida pública quanto de sua vida pessoal, porque "o pessoal é político e o político é pessoal". No caso da cobertura da campanha de Barack Obama, o New York Times e o resto da imprensa americana adotaram um comportamento legitimamente brasileiro. O presidente do Brasil – como é mesmo o nome dele? – dispunha de um esbirro especializado em abafar as matérias comprometedoras de Larry Rohter: Bernardo Kucinski. Barack Obama parece ter um Bernardo Kucinski entranhado danosamente, como uma giárdia, em cada jornal e em cada emissora de TV dos Estados Unidos. Larry Rohter conhece direitinho o Brasil. Em suas reportagens, ele revelou para os americanos tudo aquilo de que a gente sempre se envergonhou: a bandalheira do PT, o assassinato de Celso Daniel, o cinema novo, o forró, Milton Nascimento. Alguns meses depois de tratar do hábito de beber do presidente da República – Lula! –, motivo pelo qual ele correu o risco de ser chutado do país, perseguido pelo governo e por uma parte da imprensa nacional, Larry Rohter foi ainda mais longe e me chamou de gordo. Na realidade, ele chamou todos os brasileiros de gordos, mas eu o tomei como um insulto pessoal, com meus 6 quilos acima do peso. Em sua reportagem para o New York Times sobre o surto de obesidade detectado pelo IBGE, que contradizia o discurso oficial sobre a fome no Brasil, Larry Rohter denunciou nossa dieta cheia de amidos e outros carboidratos. Ele está certo. A gente come porcamente. A gente é gordo. A gente é mole. Dois anos depois dessa reportagem, Larry Rohter voltou para os Estados Unidos. Deu no New York Times é o testemunho de sua passagem pelo Brasil, em que ele, eu, a giárdia e o presidente da República – ? – somos como Sylvester Stallone: figurantes de Bananas. Diogo Mainardi VEJA |
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